Theme by nostrich.
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Um dia da Morte
Vêem-me como uma figura tenebrosa, um esqueleto horrendo, todo vestido de preto e de foice na mão, pronto a decapitar quem me apareça a frente, sem colocar questões e sem ouvir súplicas, como o monstro que dizem que sou. Vêem-me também como uma bela mulher, sedutora, tanto sensual quanto sexual, com lábios carnudos, um corpo bem torneado e pernas daquelas parecem não ter fim; uma mulher que fomenta o desejo e atrai para si as almas, somente para depois as destruir, desfruntado do seu sofrimente, uma Viúva Negra com todo o seu veneno e crueldade.
Vêem-me assim, e de muitas outras formas, tantas que já perdi conta. Mas, verdadeiramente, nem eu sei como sou. E eu sou Ela, a Morte. É que nem frente a um espelho me vejo. Eu nada vejo, sou cega. Nunca vi nada. Tivesse rosto, e mesmo assim não teria mãos que fossem capazes de distinguir os traços. Porque eu nem mãos tenho. Não tenho forma, não tenho corpo. Mas existo.
Existo, e, seja aquilo que eu for, não sou cruel. Ando por aí, a vaguear. Sempre a vaguear, vaguear é o meu trabalho. Não tenho casa, não tenho sítio onde descansar e dormir. Posso dizer que a minha casa é o Mundo, e não minto. E então, é o que faço, vagueio. Vagueio por todo o sítio, corro todas as cidades, todas as ruas, todos os campos, todos os rios. Mas sou cega.
Sou cega, e por vezes a minha metafísica vai de encontro à dos outros. E eu lamento por isso. Lamento, e a minha lamentação é sempre muito sincera. Lamento tudo o que esse infeliz encontro provoca, do primeiro tossir ao último fechar de olhos. Lamento, e as minhas lamentações vêm desde sempre. Uma eternidade a lamentar-me. Lamento, mas não choro.
Choro, choro por outras coisas. Choro por sentir tantas vezes as outras metafísicas a chamar-me. Querem-se destruir, as outras metafísicas, que passem a estar duas onde estavam quatro, que passe a estar uma onde estavam duas. E, também tanto me acontece, sentir o chamamento de uma só metafísica, querendo que eu lhe toque, querendo que lhe ponha fim à sua existência de metafísica. Isso sim, é cruel. Essas sim, são as metafísicas cruéis, não eu. Eu não quero destruir, mas vou vagueando.
E como vagueio, vou destruindo, é o meu destino. Destino tão horrível que é. Eu sou a Morte, e vim com a Vida. E não sou cruel, até sou humana. Estou nos humanos, nas pessoas, nos mais velhos e nos mais novos, e mesmo naqueles que estão por nascer, que haverão de ser humanos e pessoas. Sou a morte, e ando a vaguear por aí, passando por todos os cruzamentos, dobrando todas as esquinas. Eu sou a morte, e mais não faço que vaguear por aí. Desde sempre e até sempre.
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Venus Queen
make your way through the smoke filled room
like an angel walking on the cold stripped moon
and without any sort of fight
I’m grasped into your eyes’ tender delight
you’re grooving smoothly down the corridor
with your cherry cheeks, your discret smirk
a hollywood’ star figure among everyday Joes
i look at you, as you look at me
thinking, baby, what could we be
we are a dream, possibly
but honey tonight, we’re reality
go, leave me alone for a time
let my thoughts drift for a while
somewhere i’d make you forever mine
‘cuz no, i don’t want to know you no more,
i want to reivent you
Venus Queen
we’re two lost souls under the same sky,
of golden tones and so ever high
that would drunken our feelings
like if it was God’s wine
is it a madman’s dream,
a child’s fantasy
to see in such a clear way
you and me meeting outside
my hands ‘round your waist
leading us into a garden
of beautiful haze
and stars of so many colors
shinning so bright
our own private fireworks
on our own private night
don’t you overlook a disturbed heart,
i’m beyond common sense,
i’m playing the shakesperian part
I lean into you,
desiring your bloodish red lips
when the sound of handclapping
brings me back to my feet
cuz’ no, i don’t want to know you no more
i want to reivent you
Venus Queen
Oh, the show’s over my darling,
as i see the cheering crowd standing
our scene is done
as you are nowhere to be seen
yet so the lights went off my dear,
with no time left to consider
the moment is gone
and so have you my sweet, sweet torment
cuz’ no, i don’t want to know you no more
i want to reivent you
Venus Queen
and i’d kneel down to you
serve you as i may
give you all i got
until i fell in dismay
and if you were to be taken away
i’d suck the poison of your veins
take your place in death
other soldier put down under your domains
i’d step into darkness, into the nothin’
into the light that never was
knowing i’d soon be forgotten
no name, no grave or even a last mass
i’m not meant to be eternal
i’m just flesh and bone
unlike you my Venus Queen
Godess on the earthly terrain
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Foi a sua primeira morte?
É um bairro novo, moderno, todas as suas casas têm aquele desenho muito geométrico, construções em blocos, com cubos sobre paralelepípedos e paralelepípedos sobre cubos, onde as janelas são quadrados e as portas de entrada são rectângulos. Cada casa tinha o seu jardim, cada um belo e com um ar bem cuidado, constituídos sempre por um largo relvado e por duas correntezas de flores variadas, formando as bermas duma estrada que indicava o caminho até à entrada. Eram flores e relva naturais, plantadas claro, mas que ali para os estranhos parecia sempre tratar-se de mais um pormenor artificial daquele bairro de séc.XXII em pleno séc.XXI. Era um bairro que os vizinhos não conseguiam perceber, e por onde gostavam pouco de passar, com aqueles candeeiros que à noite só acendiam ao passar por eles, lojas onde cada vez mais as compras se faziam com um ecrã e não com os trabalhadores, e estoros que se abriam sem se ver ninguém a abri-los por entre as brechas. De facto, só quem lá vivia era capaz de entender aquele sítio e as suas particularidades, de vê-lo como normal.
Numa dessas casas vivia uma família: Margarida, mãe e mulher; Jorge, pai e marido; e Mateus e Luciana, os seus filhos, gémeos. Margarida, trinta e quatro anos, mulher de corpo bem feito e sinceramente bonita de cara, era um caso de sucesso na vida. Em pequena queria ter uma loja de roupa sua, e desde há uns anos que a tinha, gerindo-a seu belo prazer, num negócio que corria de feição. Era seu sonho de criança, e agora concretizado não a desiludia, era um trabalho que amava e que jamais quereria trocar.
Mas mais que um trabalho, uma carreira, Margarida sempre desejou ter uma família, a sua família. Sentia que, mais cedo ou mais tarde, teria que ter aquelas pessoas que teria de cuidar e fazer felizes, e que em troca cuidariam dela, fazendo-lhe feliz. Começou a conquistar essa família há cinco anos, com o consumar da sua união com Jorge, advogado com mais dez anos que si, que o encantara desde o primeiro contacto. Bom falante, cortês, amante da Literatura, Margarida sempre adorara o seu jeito de ser, muito sóbrio, dono de uma calma que lhe impressionava, associava a sua postura à de um gentleman, ela que antes julgava que estes já estariam extintos. Os seus filhos, Mateus e Luciana, gémeos de três anos foram o completar dessa família. E toda a gente se surpreendia da forma como aquele casal se adaptou à chegada de não um, mas de dois bébes, à facilidade com que o fizeram, principalmente Margarida. Ela que conseguia sempre modelar os seus horários para que pudesse tomar conta dos filhos, que dormia menos e menos, e já nem descansava…tudo isso sem por uma vez se queixar, quanto mais. E Jorge, esse era um excelente complemento à mulher, ajudando em tudo o que podia, quando podia, fazendo todas as suas tarefas com carinho, tendo ainda tempo para mimar a mulher. Naquela altura, que toda a gente pensava que passariam mal e teriam que pedir muita ajuda, a família, a amigos, e quem sabe, porventura verem-se obrigados a contratar babysitters…eles não tiveram uma única quebra, e poucos favores pediam a quem quer fosse.
Margarida era o espelho da felicidade, com um tom alegre na voz sempre presente, e um sorriso rasgado que já se confundia com as feições, contagiava os que lhe queriam bem, e provocava a inveja naqueles de mau-carácter. Era, porque no último mês Margarida deixara de o ser. Faz hoje um mês desde que a sua mãe morreu, um volte-face que fez com que aquela felicidade, aparentemente tão consolidada, forte, e autêntica se desmoronasse e passasse a ser não mais que parte de um passado recente. A sua energia, tão característica, foi como que drenada duma só vez, e ela já não era mais que um fantasma de si própria. Deixara a sua loja à responsabilidade da empregada mais velha, em quem confiava, dissendo que não tinha mais cabeça para aquilo, e, embora não tenha transmitido a ninguém a ideia, até a considerava vender. Dos filhos ainda foi tentando tomar conta, mas até para tal se sentia impotente, ela que sempre gostara de tudo nos seus filhos, que valorizava cada momento com eles passado, que se emocionava com os seus sorrisos e com cada vez que lhe chamavam ‘mãe’ ou ‘mamã’, agora parecia só ouvir os seus choros e lamúrias, que a desgastavam ainda mais e mais. Junto com Jorge decidiu que o melhor seria contratar uma babysitter, não queria que ninguém que conhecesse e gostasse tivesse a noção de que ela estava a sentir aquela morte tanto quanto realmente estava. Os dias eram agora vividos todos no seu quarto, de onde já mal saía, só para as refeições, e isto quando Jorge não lhas cozinhava e levava à cama. Ficava sozinha quase todo o tempo – o marido deixava os filhos na babysitter logo de manhã, antes de ir para o trabalho – a chorar de cabeça para baixo na sua almofada até que as lágrimas lhe esgotassem. Jorge esforçava-se incessantemente no seu papel de marido, tentando apoiar a sua amada, levantá-la, fazer renascer aquela vida imensa que antes ela emanava com tanta exuberância…mas não tinha resposta, nunca tinha resposta, junto dele ela nunca se apresentava triste, não exibia a sua tristeza, só que Jorge sentia-a, via-a muito claramente, e a verdade é que ela não a conseguia esconder, lacónica e apática.
Uma noite, estavam os dois lado-a-lado na cama preparando-se para dormir, e Jorge decidiu ter a conversa que já há uns dias pensava ter com a sua mulher. Suspira fundo, ganhando coragem, antes de lhe falar, num tom suave, caloroso:
- Margarida, querida, acho que está na hora de chamares-la.
Margarida não ouve, não responde, o seu olhar perdido em frente, na parede, no nada. Apercebendo-se Jorge leva a sua mão ao braço da esposa, agarrando-o num gesto terno.
- Margarida – chama Jorge, num tom ligeiramente mais forte que antes -, querida, acho que está na hora de chamares-la.
Margarida parece acordar do seu estado letárgico, focando o seu olhar para o amado.
- Chamá-la? – Pergunta-lhe, num tom ausente – Não, Jorge, não…Quando foi o teu pai tu não o chamaste, mantiveste-te forte e tiveste a coragem para ultrapassar a má altura sem o precisares de chamar.
A voz com que Margarida falara não lhe convenceu, Jorge larga-lhe o braço, para logo depois lhe segurar a mão, firmemente, os dedos entrelaçados.
- Escuta, minha querida – di-lo, de forma calorosa -, tu não és eu, e nem quero que o sejas. Apaixonei-me por ti, não por um reflexo meu. Não tens que te embaraçar, se te resolveres a fazê-lo não serás a primeira pessoa. Eu só sei que estou cansado de te ver assim, uma sombra de ti própria, e que os teus filhos apesar de gostarem da Natália andam a estranhar muito esta tua ausência, eles estavam tão habituados a ti…a Natália diz que eles só perguntam e choram pela mamã, e tu bem vês a felicidade com que eles correm para ti quando voltam a casa. Eu tenho saudades de ti, muitas, e o Mateus e a Luciana precisam da sua mãe. Se for preciso chamares-la para voltares a ser o que eras, para ganhares outra vez aquela tua vida, então peço-te, fá-lo. Temos espaço em casa, ela que fique aqui o fim-de-semana, ou melhor, o tempo que for preciso. Além disso, de certeza que as crianças haveriam de gostar de voltar a ver a avó…eles estão a passar muito ao lado disto, mas a sua falta haverão de estar a sentir.
Subitamente surge um brilho distinto nos olhos outrora vagos de Margarida, que se lança aos lábios do marido num beijo ternurento, antes de lhe acenar afirmativamente, muito junta a ele, com os narizes colados.
No dia seguinte, Sábado, Margarida sai logo pela manhã, levando consigo uma bengala que não lhe pertencia, e nem sequer precisava, andava sem o seu apoio. Nervosa ainda não tinha saído de casa, o seu peito começava a apertar-lhe, mais e mais, ao enfrentar aqueles portões gigantes, que lhe intimidavam. Lentamente, pé ante pé, lá entra ela, receosa, a tremer, seguindo por aqueles caminhos tão simples e lineares, mas que a ela sempre pareceram labirínticos. Vai olhando , timidamente, para os lados, para as lápides, averiguando o vazio de pessoas. Naquela manhã soalheira era a única a lá estar, e isso deixava-a genuínamente assustada. Por fim, chegou à lápide de sua mãe, confrontando-a por momentos, antes de pousar a bengala e cerrar os olhos.
- Mãe, desculpa vir aqui assim, pedir isto, mas a verdade é que eu ainda estou a precisar de ti…Vem, vem comigo, mãe. – Começa Margarida, com uma voz profunda, sentida, mas trémula – Vem passar uns dias a minha casa, há espaço, arranjamos-te um quarto, voltas a ver os teus netos…volta a viver mãe. Faltou-me tempo contigo, eu quero poder ter esse tempo, não quero perdê-lo.
E assim, ao abrir os olhos Margarida vê-a, pequenina, corcunda, numa versão disforme dum corpo humano. Olha-a naqueles olhos mirrados, cansados, e ao fazê-lo a sua cara ilumina-se, o sorriso rasgado reaparece no seu semblante, e num ímpeto atira-se àquela frágil figura num abraço. Indefesa, esta não consegue mais soltar um grito de dor, um ‘Ai!’, que faz com que Margarida a largue e dê um salto para trás.
- Margarida, esqueces-te que volto dos mortos, mas volto como parti? Estes meus ossos já deram de si há muito tempo… – Disse a velhinha, num tom fraco, muito fraquinho.
- Oh, desculpa! – Exclama Margarida, antes de voltar a agarrar na bengala – Toma, a tua bengala, mãe, trouxe-a.
A mulherzinha lá tira a mão da sua coluna, disfarça a sua dor e segura na velha bengala.
- Ficaste com ela? Não estava em minha casa? – Questionou a velhinha.
- O pai não queria ficar com ela…nem com ela, nem com nada. Fiquei com ela, com a tua cadeira, as roupas, as agulhas e os novelos de tricô…até os medicamentos ficaram comigo, mãe.
Desenha-se um sorriso naquela cara enrugada, e é com essa expressão sorridente na face que ela responde à filha.
- O teu pai tem ultrapassado bem isto, tem vindo aqui todas as semanas, com um ar muito calmo, muito sereno. Deixa-me margaridas brancas, as minhas favoritas, de onde vieram o teu nome, diz-me umas palavras, fala-me do que tem feito, e depois vai embora. Mas tu…tu Margarida, é a primeira vez que me vens ver, e chegaste com o teu corpo todo a tremer, pedindo que eu vá contigo…para ti isto tem sido muito difícil, não tem, filha?
Cabisbaixa, envergonhada talvez, os olhos de Margarida falam por ela.
- Vamos lá então. – Declara a sua mãe num tom de ânimo.
E as duas percorrem o mesmo caminho, no sentido oposto, claro está. E apesar de agora os passos de Margarida terem um à-vontade, uma confiança e um bem-estar que antes não existiam, demoraram mais do que o dobro do tempo a chegar a casa, devido à lentidão da sua mãe, com os seus passinhos curtos e vagarosos. Não que ela não quisesse andar mais rápido, mas não o conseguia.
Chegadas a casa, são logo cumprimentadas por Mateus e Luciana, a correr para as abraçar, contentes por verem a mãe, e a avó, que há tanto tempo não viam sem perceberem o porquê. Jorge veio a seguir, exibindo um sorriso enorme ao ver a nova vida que se tinha apoderado da sua mulher, cumprimenta a sogra, agradecendo-a sinceramente por ter vindo. Bocejando, muito cansada, a avózinha de Mateus e Luciana sobe as escadas a custo, dirigindo-se à cama que lhe estava reservada no quarto de hóspedes. Queria dormir antes do almoço, argumentava: ‘Quanto mais se dorme, mais se quer dormir, não é?’; e ‘Foi a Margarida que me acordou, foi como acordar com o despertador, e eu nunca gostei de despertadores, não, não. Fazem com que uma pessoa acorde antes do tempo, e o corpo acorda antes de poder descansar aquilo que realmente quer. O corpo, o corpo devia ser o único a poder acordar-nos!’
Não compreendendo o sono e os argumentos de sua mãe, Margarida, dominada por uma renovada energia, enfia-se na cozinha, preparando o almoço. Ela que já nem cozinhava há tanto tempo, agora fazia-o com tanta vontade e prazer! Pronto o almoço, Margarida põe também a mesa sozinha, não se esquecendo da cadeira de sua mãe, a cadeira especial que ela tivera que comprar depois da operação à anca. E lá, almoçam, os três adultos numa animada conversa, falando de trivialidades, com as crianças a deixarem-se contagiar por aquela súbita felicidade. Nessa tarde Jorge leva os filhos ao parque, deixando a mulher e a sogra em casa. Margarida decide buscar as coisas para o tricô, e as duas metem as mãos à obra, Margarida vai tricotando com perícia e rapidez, ao contrário de sua mãe, que o faz lenta e muito cuidadosamente, suspirando de quando em vez. Vão falando, Margarida desabafa de como têm sido as coisas depois daquela sua primeira morte, de como pusera trabalho e filhos de lado devido a tão mal se sentir. A mãe ouvia-a, atentamente, disfarçando a tristeza que as palavras da filha lhe estavam a impôr. Quase sem dar pelo decorrer do tempo, Margarida é surpreendida pelo regresso de Jorge, Mateus e Luciana. Despacha-se para a cozinha, para fazer o jantar. Jantar feito, jantar comido, e mesa levantada, é hora de ver os desenhos-animados com os pequenos até à hora deles se deitarem. Chegada essa hora, também a avó se quer deitar, Margarida lembra-lhe dos medicamentos, uma série de comprimidos que esta tem que tomar antes de se deitar. Seguindo os conselhos da filha, ela toma-os então, soltando novo suspiro. Sobrando ela e Jorge naquela noite, os dois falam de como aquela visita lhe estava a fazer bem, antes de, enfim, irem para o quarto para o que seria uma noite de bom sono dos dois.
No dia seguinte a velhinha levanta-se muito tarde, já é hora de almoço, e a família esperava-lhe à mesa. À tarde, Jorge torna a levar as crianças ao parque, de que elas gostaram muito, dando tempo e espaço para a sua mulher e sogra estarem sozinhas. Continuando dominada por aquela nova energia, Margarida põe-se em limpezas, Jorge tem dando o jeito que pode na casa, mas não era a mesma coisa, e agora que ela dava por isso, fazia-lhe impressão. E lá se meteu a aspirar aquilo, a passar um pano aqui e acolá, sobre o olhar da sua mãe, que ficava a vê-la, soltando um suspiro de quando em vez. Aborrecia-se, até que Margarida lhe chega segurando o que lhe parecia ser um grande livro.
- Olha! – Diz Margarida, excitada. – É o nosso velho álbum de fotografias!
E as duas sentam-se, a idosa na sua cadeira especial, Margarida numa qualquer, onde se pôs a folhear entusiasticamente o álbum, comentando as fotos. Até que a mãe a interrompe.
- Sabes Margarida, nunca gostei de fotografias. – Afirma a velhinha, num tom doce – Sempre me assustaram, faz-me lembrar bruxedo. Parece que querem apanhar momentos, mas os momentos não podem ser apanhados. Os momentos acontecem e ficam no tempo, não podem ser apanhados, não, não podem, é bruxedo.
- Mas não gostas de relembrar memórias, mãe?
- As memórias, minha filha, são para ficar na cabeça, não num livro. A memória não esquece o que importa.
Margarida assente, acabando por concordar com a mãe, a memória não esquece o que importa.
- Margarida, filha, falemos de coisas importantes. – Começa a avózinha, com toda a seriedade na soa voz suave. - Falemos da minha morte e de ti. Sabes, eu já antes de morrer esperava a minha morte, já a tinha aceitado. Não a desejava, mas já a sentia nos meus ossos, nas minhas dores. Tudo o que podia ter feito na vida, fi-lo. Nós, os velhos muito velhos, pouco mais podemos fazer que continuar a envelhecer, envelhecer até que a morte não nos deixe ficar mais velhos. E a maior felicidade que podemos ter é ver a felicidade dos novos de quem tanto gostamos. E eu, eu sabia-te tão feliz, com a tua loja, com o teu marido, com os teus filhos, os meus netinhos! Morri calma e feliz, sabendo que estavas feliz. Agora volto à vida, às minhas dores. Volto a ver umas escadas que não me querem deixar que eu suba, volto a tomar os medicamentos de que me fartei há anos, volto a tricotar com aquela ideia na cabeça de que já não sei tricotar, volto a ver os outros trabalhar, querendo ajudar e sabendo que não posso…
- Mas mãe, não ficas feliz por estar aqui comigo? Com o Jorge, com os teus netos?
- Eu fico… – responde a velhinha, prontamente. – Fico feliz por te ver assim, toda arrebitada, cheia de força. Mas fico triste por saber que por um mês tiveste triste pela minha morte. A morte que para os velhos é uma coisa tão normal…Tu que és nova, devias de pensar na vida, não na morte. A vida é para os vivos, a morte havia de ser para os mortos, não para os vivos!
‘…A morte havia de ser para os mortos, não para os vivos!; uma declaração que naquele momento pareceu ser destino, com o partir de uma das pernas da cadeira especial, com o tombar daquele corpo, tão frágil que nem a queda suportou. Margarida levantou-se, apercebeu-se do que aconteceu, e conseguiu conter o grito, controlou-se, a sua mãe morta diante dela. Ligou à agência funerária, e num momento chegou a carrinha fúnebre. Ao entrar em casa, e ver o corpo da velhinha, um dos homens perguntou: ‘É a sua primeira morte?’. Não, não o era, e isso deixou-o a ele e ao parceiro mais descansados no cumprir da tarefa.
Quando Jorge chega à entrada de casa, vê a mulher de pé, do outro lado da rua, deitando ao lixo a cadeira de sua mãe, as roupas, as caixas de medicamentos, a bengala partida. Partida não pelo destino como a cadeira, mas pelas suas próprias mãos.
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Verbo amar
Eu sinto o meu coração a querer explodir por ti
Tu ignoras, indiferente, graças a outro, que te é tudo, não há lugar para mim
Ele tem-te, e é só
Nós não existe, não pode existir, não irá existir
Vós sois o espelho da felicidade, o reflexo do meu sofrimento, e da minha demência
Eles haverão de me enterrar, guerreiro dos tempos modernos, morto na batalha do amar.
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Conto-de-fadas m/18
Era uma vez um país de bosques negros, repleto de animais que não eram mais que vis assassinos. Onde os reis são tiranos, o ódio personificado do povo oprimido. Onde castelos não são mais que masmorras disfarçadas, em que só se consegue ouvir os gritos dos torturados e o riso sádico e tenebroso dos carrascos. Onde as princesas são feias, superficiais, e antipáticas, e os poucos princípes de coragem sucumbem perante dragões, em tentativas infrutíveras de salvá-las por quaisqueres razões que jamais se poderão conhecer. Onde fadas protectoras não passam do reflexo da imaginação dos loucos, que acabam atirando-se de penhascos sem saber como voar. Onde sapatos de cristal apertam os pés até ao ponto deles ficarem roxos, e não mais se conseguir andar. Onde um sono eterno só pode significar morte, e o apodrecer do corpo que eventualmente seria belo. Onde sete anões são tão pequenos de espiríto que acabam dançando sobre a campa duma rapariga, de pele cor de neve, que pereceu graças a uma maçã fatal. Onde ‘herói’ é uma palavra a que ainda não se deu significado, e gigantes destroem aldeias com um sopro só, sem haver que os importune. Onde o único encanto, é o que as pessoas têm pelo pecado e pelo Inferno. Onde o amor é como o de Romeu e Julieta, condenado antes de existir.
Era uma vez um mundo onde os que poucos têm, menos vão tendo, e os que nada têm são esquecidos como se ninguém fossem. Onde o poder tudo controla, e os inocentes nem se sentem controlados. Onde o local onde se trabalha nos vai matando, lenta e dolorosamente, sem que dêmos por isso. Onde os poucos valorosos caem frente a um sistema implacável e destrutivo. Onde o suicídio, tristemente, nem se trata dum acto de loucura, mas sim um acto consciente na esperança de terminar com o desespero que é viver. Onde quem decide viver, vive sempre preso por limites que o impedem de ser livre. Onde quem decide morrer é enterrado, e depois do enterro daqueles em que se a sua vida tocou deixa de existir. Onde, por vezes, se morre e já aí ninguém quer saber de nós. Onde há quem seja capaz de provocar o mal nos outros sem remorsos, como se de um monstros se tratasse. Onde os pecadores se livram do Inferno. Onde o amor está extinto. O mundo dos infelizes para sempre.
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Conhecer
‘É inteligente, tem a sua vida bem gerida, um trabalho de que gosta e que lhe preenche o dia-a-dia. Conquistou o orgulho da sua família, a que dá a importância e a retribuição que deve dar. Não é a pessoa mais faladora do mundo, mas nem por isso tem problemas de auto-estima, como é tão comum nos mais solitários. Sente-se bem consigo mesmo, é algo que se vê à primeira vista, o seu semblante carrega confiança.
Contudo, terá concordar que lhe parece faltar algo, e eu pergunto-me se esse algo não será ‘alguém’…’
De verdade, não é apenas o emprego que me mantem ocupado. Sou um homem que rege e é regido pela rotina. Ou seja, pelo facto de acordar hora e meia mais cedo que a hora de entrada no trabalho, o que me dá tempo para a minha higiene pessoal, para vestir o fato que me esperava desde da noite anterior, comer o pequeno-almoço que já tinha escolhido atempadamente, beber o café no sítio de sempre, apanhar o autocarro conforme o planeado – a não ser que ele se atrase, claro está – e ainda guardar uns quinze minutos para ler as primeiras páginas do jornal. Isto é parte certa de todos os meus dias de labuta, de segunda a sexta, sem falta.
‘Uma vida de rotina…E não se cansa, não se aborrece?’
Cansar-me? Aborrecer-me? Não, não me parece. Não que me lembra. Consigo recordar-me dos tempos em que me cansava e me aborrecia, e nada tem a ver com os tempos de agora. Cansava-me naqueles Domingos em que acordava já de tarde e ficava o dia inteiro a pastelar, sem ter o que fazer. Aborrecia-me quando era miúdo, chegava da escola e atirava-me logo para a cama, esperando somente pelo amanhã.
É que agora, chego a casa e tenho este livro pronto para ler, aquele filme para ver, aquele arroz de pato para cozinhar, o que seja. Tenho sempre algo onde meter as mãos, algo que não me deixe ficar parado, algo para que não me aborreça. Não me vejo como um obsessivo-compulsivo, nunca organizei os meus livros por ordem alfabética, ou me preocupei se as minhas canetas estão agrupadas por cores, valor, ou o que for.
É a minha forma de ser feliz…acho eu. Gosto de sentir que tenho a vida controlada, e tenho aversão a surpresas de todo o tipo. Sou dono da minha própria felicidade, que é uma felicidade como que…pensada? Sim, talvez seja essa a expressão certa, uma felicidade pensada. E eu não quero que nada me perturbe a felicidade, que eu vou não só pensando, como também construindo, todos os dias.
‘Então diz-se plenamente satisfeito com aquilo que faz, com aquilo que é, com o que é a sua vida…Mas no entanto, por alguma razão quis marcar esta consulta. Se a marcou, se está aqui, por alguma será. Apenas mais uma parte do seu ‘constante plano de vida’, mais um acto para preencher o calendário, ou, e volto a focar este assunto, terá decidido vir a esta consulta para tentar colmatar a necessidade que me parece ter no que toca às relações humanas?’
Relações humanas..? As relações humanas têm muito que se lhe diga. De qualquer forma já lhe tinha falado da minha família, a que continuo próximo. Telefono e visito aos meus pais regularmente, nunca faltei a um jantar que eles ou a minha irmã me tenham convidado, e garanto-lhe, se o faço, fá-lo com prazer, com gosto. Para mim a família basta…o resto? É o resto. Adiante, o seu caso, quando se refere a esta consulta…
‘Sim, desenvolva.’
É o que lhe digo, as relações humanas são complexas. Deixe ver se me consigo explicar… Lembra-se da tal história de eu ir sempre ao mesmo café, não é? Pois, e como é normal em tudo o que é café, é comum ouvir-se conversas, conversas paralelas. Eu sei que já ouvi umas quantas, mesmo sem querer realmente ouvi-las. Oiço-as, não sei porque razão, mas oiço-as. Talvez só porque sim, talvez só por estar lá.
Muitas dessas conversas são obviamente sobre o nada, conversas de circunstância, conversas de café, não há nome melhor. No entanto, uma vez ou outra, ouvia conversas diferentes, conversas com sentido e, porque não (?), sentidas. Conversas, que ao contrário das outras, não me parecem de todas indicadas para se terem num café mais ou menos cheio, onde pessoas estranhas, tal como eu, as ouvem.
Foi uma dessas conversas que me deu aquele que eu creio ser o exemplo perfeito para lhe fazer compreender o meu ponto de vista.
Eram dois homens de meia-idade, para aí quarenta e poucos anos, que habitualmente estavam lá a beber a bica ao mesmo tempo que eu. Dos nomes já não me consigo lembrar, nunca tive muito jeito para nomes, mas vamos chamá-los António e José para se tornar mais prático.
Acontece que um deles, o António, curiosamente aquele que eu me recordo como sendo o mais alegre do duo, se pôs, absolutamente do nada, a desabafar ao amigo. Falou, de forma envergonhada e triste, da sua mulher, que o traira.
O amigo, esse limitou-se a beber o seu café, com calma, como se nada fosse, apenas para depois mudar de tema radicalmente, começando a divagar sobre o Benfica, clube dos dois, naquilo, que, pensei eu na altura, se trataria duma tentativa de evitar pôr alcóol na ferida e animar o seu companheiro.
O insólito do episódio passou-se no dia seguinte, em que, logo a seguir aos ‘bons dias’ da prache, o José resolve perguntar ao parceiro algo como…’Então e a tua mulher? Como está? Há um tempo que já não falas dela.’
Não será difícil de imaginar a expressão de incredulidade que se impôs na cara do pobre António, enquanto o seu olhar se fixava no José. Acabou por engolir o café num trago rispído e sair de rompante, dissendo apenas ao seu amigo que daquela vez seria ele a pagar.
Nunca mais vi nenhum dos dois naquele, nem o António, nem o José. Nada que não se esperasse depois de um momento de embaraço como foi aquele.
E é esta a tristeza das relações humanas no seu estado mais puro. A partir do momento em que dois amigos conversam e é apenas um a falar, e o outro a não ouvir, entende-se a falabilidade das mesmas. Quem fala, fala por falar, porque quer ser ouvido, porque precisa, por alguma razão, de ser ouvido. Mas poucos são aqueles que querem ouvir.
Esta é a noção que tenho, e daí não desperdiçar tempo a falar com este ou aquele. Faz-me impressão saber que estou a tentar comunicar com alguém, e esse alguém fecha os ouvidos e range os dentes à espera que eu me cale.
Chegando então à questão de vir aqui a esta consulta…não diria que é uma necessidade, que é uma tentativa de preencher uma espécie de lacuna que tenho. É porque, apesar de tudo, eu não desgosto de uma boa conversa, só que estas não me parecem fáceis de se ter, de se encontrar.
Agora você pode estar obcecado em tirar esta ou aquela conclusão sobre mim, mas fá-lo pelo que ouve, pelo que eu digo. Fá-lo porque é a sua profissão, porque é pago para isso, mas pelo menos sei que estou a falar e que me está a ouvir. Acho que é do melhor que consigo arranjar, por mais triste que seja.
…
‘Então novidades? Está a pagar pelo serviço, aproveite o seu dinheiro da melhor possível.’
Piada…De qualquer forma, há um mês atrás falei-lhe principalmente de rotina e de relações humanas, gostava de continuar por essa linha. Outra coisa que eu aprecio nas rotinas é o facto de não sermos só nós a adaptarmo-nos a elas, também as pessoas que participam nela se adaptam.
Há pormenores que não lhe falei anteriormente que embelezam o meu dia-a-dia. Sei que falei que ia todas as manhãs ao mesmo café, à mesma hora, mas não lhe disse que sempre que mal entro no café já tenho a bica tirada e à minha espera, ou que se leio o jornal todos os dias, mas que esse mesmo jornal me está reservado de segunda a sexta, e não porque o pedi.
Dá um sabor extra, sentes que as outras pessoas já sabem o que contar de ti, que, mesmo que de uma forma miníma, te conhecem. É algo a meu gosto, algo que vai acontecendo com o tempo, que apenas acontece graças à progressividade. Não é uma surpresa, não é uma ‘bomba’ na tua vida. As outras pessoas começam a calcular que o amanhã será igual ao hoje, porque o hoje foi igual ao ontem. Nada mais. Simples e inequívoco.
De resto, eu até tenho tentado arranjar formas para evitar essas ditas surpresas. Os meus pais ainda não têm idade de morrer, mas já me mentalizei de tal forma da perecebilidade deles que é como se já tivesse passado por uma espécie de período de luto auto-induzido. Encarei a possibilidade da minha irmã se vir a casar em todos os relacionamentos em que ela se envolveu nos últimos cinco anos, e todos deram em nada. São coisas pelas quais nos podemos preparar, já que sabemos que são prováveis de vir a acontecer.
Só que logo passado uns dias da minha última vinda aqui uma mulher entrou na minha vida. Sem que o prevesse, sem que o quisesse. E não me interprete mal, não estou a falar de um amor à primeira vista, dum reencontro qualquer com uma namorada do passado que nunca esqueci, nada disso. Apenas de uma mulher, que, do nada, forçou entrada na minha vida, forçando a entrada na minha rotina.
De início, nem sequer dei por ela. Quer dizer, dei por ela, não lhe dei foi importância. Para quê dar?
Ainda me lembro da primeira vez que a vi. Foi no café, naquela que era suposto ser uma manhã de trabalho como as outras. Ela já lá estava, no balcão – eu bebo sempre a minha bica no balcão – soprando para o seu café, esperando que este arrefecesse. Reparei logo nela, aquilo não é propriamente ‘A Brasileira, é um café pequeno que vive dos clientes regulares, como eu, nota-se logo quando surge uma presença estranha.
Teria os seus vinte e muitos, a roçar os trinta, não era nem alta, nem baixa, era de estatura média para mulher, tinha o seu cabelo negro pelos ombros, num corte de cabelo que não fazia justiça à beleza da sua cara, uma beleza sincera, não artificial, onde sobressaíam os lábios rosa suave e os olhos apelativos, castanhos avelã, enfortecidos por qualquer tipo de maquilhagem, levemente usada.
Quanto ao corpo…bem um café não é uma passerelle, e se olhei, não olhei demasiado. Mas adianto já que de manhã pouco se pode dizer sobre o seu corpo, aprisionado sempre numa vestimenta de secretária tão apertada que até faz com quem esteja à sua volta perca o ar.
E foi só isso, bebeu o café pouco antes de mim e saiu. Não mais a vi nesse dia.
Na manhã seguinte a mesma coisa, entrei e ela assoprava para o seu café. Só dei por um novo pormenor, não punha açúcar, algo que não vejo demasiadas vezes.
‘É um observador, não seriam muitos a dar atenção a um pormenor desse género.’
Aprende-se bastante não só a ouvir, como também a olhar, a observar, acredite.
Adiante, também nesse dia não a vi mais. Mas novamente, no dia que se seguiu lá nos encontrámos outra vez no café, apenas com a diferença de eu lá chegar primeiro que ela, e consequentemente sair antes dela acabar o seu café. Só que nesse dia voltei a vê-la.
Vi-a de novo e não me apercebi. Depois do trabalho, no mini-mercado onde eu vou todos os dias sem falta comprar pão para o jantar. Estava na filha para a caixa, mesmo à minha frente, e de diferente só o que vestia. Uma roupa de ocasião no lugar de uma vestimenta para a labuta, foi o que bastou para que não a reconhecesse. Nada de estranho, afinal aí ela ainda não era importante. Já nesse dia levava ela os seus dois pacotes de leite, fiquei mais tarde a saber.
‘Dois pacotes de leite?’
Deixe um tipo contar a sua história.
‘Os ouvidos são seus.’
Novo amanhecer, nova ida ao café, novo encontro. E aí comecei a pensar para mim mesmo: ‘Ok, a mulher gostou deste sítio, é melhor habituar-me à sua presença por aqui. Não é a primeira pessoa que aparece no ‘Machado’ depois de mim, nada de extraordinário.’
Ah…’O Machado’ é o nome do café, tem o nome do dono, tanto tempo a falar-lhe dele e ainda não lhe tinha dito isso, pois não?
‘De forma alguma. O café foi sempre ‘ O Café’ nas suas palavras.
Pois, o café é ‘O Machado’.
Continuando, neste quarto dia foi ela a acabar o café primeiramente. Atrasei-me por um golo, e foi esse golo de distância que ela teve de avanço de mim. Lá saímos com esse golo de distância de distância a separarmo-nos, com ela a andar diante de mim. E…andava ao meu passo, pelo meu caminho. Andou sempre pelo meu passo e pelo meu caminho, até chegar…à minha paragem de autocarro onde se sentou. Fico de pé, ao lado dela.
Veio-me um arrepio pela espinha acima. Foi aí que comecei a dar-lhe importância. Uma coisa era tomar o café ao mesmo tempo que eu, outra era fazê-lo e percorrer o exacto mesmo caminho que eu até à paragem de autocarro. Já começava a ser algo demasiado diferente para uma vida de rotina como a minha, era o que pensava.
Esperava ansiosamente pelo meu autocarro, com o meu interior a pedir para que ela não o apanhasse também. E lá veio ele, a tempo e horas, subindo a rua, a minha atenção a dividir-se entre ele e a mulher que viera comigo desde do café. Dei o sinal ao autocarro, embora soubesse que tal não fosse preciso, já que todos os motoristas daquele horário me conhecem. Ele pára e a mulher mantem-se sentada, sinto-me aliviado por um instante, profundamente aliviado.
Começo a caminhar em direcção à entrada, com as portas a abrir, e olho por cima do ombro. La estava ela, atrás de mim. Fico com uma corda na garganta. Entro apressado, nervoso, mostro o passe, sento-me num dos banco mais distantes daquela entrada, quase no fundo do autocarro. Ela fica a conversar com o motorista, ainda podia voltar para trás, podia estar enganada…mas não, nada disso, acaba por comprar bilhete. Encostei a minha cabeça ao vidro, desalentado.
O dia seguinte marcava o final da semana, sexta-feira. Acordei ensonado, tivera problemas em adormecer. Sempre fui uma pessoa de sono fácil, de chegar à cama e adormecer no momento em que fecho os olhos. Não fora assim na noite anterior. Tinha a cabeça demasiado pesada, com os pensamentos sobre aquela mulher a atropelarem-se e sobreporem-se. Rebolava para aqui, rebolava para ali, chegava a dar verdadeiras voltas de 360 graus.
Acendia a luz, olhava em volta, desconfiado e agitado, como se sentisse que alguém me estava a observar…Que ela me estava a observar! Era absurdo e sentia-me como uma criança. Mas fi-lo vezes sem conta. Acendia a luz, olhava em volta num sobressalto, desligava-a, dava mais umas voltas na cama, tornava a acendê-la, a olhar para cada recanto do meu quarto, e dedo no interruptor para desligá-la mais uma vez. Não sei quantas vezes o fiz, não tenho ideia, foram várias. Não sei a que horas acabei por adormercer, mas recordo-me, ainda ouvi os pássaros a cantar. Nunca tinha ouvido os pássaros a cantar antes de dormir.
‘Tem o seu quê de belo, não o tem?’
O quê?
‘Ouvir os pássaros antes de adormcer, saber que a manhã está ali, do outro lado dos estores, quando se fecha os olhos.’
Talvez possa ter. Mas não para mim, pelo menos não naquela situação que lhe descrevia. O que eu só queria era dormir, dormir as mesmas horas que sempre dormi e acordar às horas que sempre acordei.
‘Quando eu era jovem, numa das imensas vezes que os meus pais me deixaram sozinho em casa por uns dias, convidei uma série de amigos e amigas para uma noitada lá. Era uma boa casa para isso, espaçosa, e sem vizinhos que chateassem por perto.
Então lá se fez a festa, com litros de álcool a dividir por um número considerável de adolescentes ansiosos por apanhar umas bebedeiras tão fortes até ao ponto de ter que se cuspir o próprio estomâgo. Naturalmente, nem todos aguentaram o mesmo tempo, e ao longo da noite foram muitos os que foram abaixo e acabaram por adormecer neste ou naquele ponto da casa.
Eu, rapaz de bons fígados, fui o último a ficar de pé. Lembro-me que acabei por ir para a varanda, onde assisti pela primeira vez ao nascer do sol, ao amanhecer, àquele jogo de cores no céu. E o meu torpor alcóolico como que desapareceu. Estava simplesmente ali, sentado na minha varanda, a admirar a beleza daquela sucessão de momentos que nunc a antes tinha visto. Fazia-o respeitosamente, sentindo-me grande, poderoso, só por poder vê-lo. Até que do nada, adormeci, não dava para mais.
No dia seguinte, depois de eu e os outros termos terminado com as limpezas mandatórias, de ficar sozinho para um almoço quase à hora do jantar, fiquei a meditar sobre o que tinha presenciado. Quando se está com álcool a mais no sange não se pensa muito, sente-se mais do que se pensa. E cheguei a uma conclusão. Cheguei à conclusão que aquela sensação de grandeza e de poder da noite anterior mais não era do que uma consequência do sentimento de conquista.
Se o amanhecer é belo? Sem dúvida que o é. Mas não podemos dizer com objectividade que seja algo extraordinário. É algo que se repete todos os dias, um após o outro, e para algo possa ser extraordinário tem que ser fora do comum, está na raiz da palavra. Não era pela singularidade que aquele momento tinha tido aquela força, já que eu tinha a perfeita noção que aquele era um acontecimento de todos os dias, e não ganhava especial relevo por eu o ter presenciado.
Então, a única coisa que pôde explicar a importância que lhe dei, foi o sentimento de conquista. O sentimento de conquista sobre a ordem natural das coisas, percebe? Porque as coisas tem a sua ordem natural. A ordem do natural dos meus dias era dormir durante a noite, e acordar quando o sol já raiava bem lá em cima. Mas não naquele dia.
Não. Aquele foi o dia onde decidi convidar os amigos para uma festa, indo contra aquilo que os meus pais queriam que eu fizesse. Aquele foi o dia em que vivi a noite como se da tarde se tratasse, e fechar os olhos e dormir estava fora de questão. Foi o dia da minha primeira directa. O dia em que os meus olhos comprovaram a existência do amanhecer, algo que a minha mente já reconhecia existir, mas que eu nunca antes tinha visto.
Foi um dia diferente dos meus dias, em que a tal ordem natural não teve lugar. E foi para mim como se eu tivesse vencido essa ordem, que eu nunca antes tinha questionado, e que não sei até que ponto me importunava. Isto é se sequer me importunava. E foi vencer aquela ordem que me deu aquela sensação imensa de força e de grandeza, como se tivesse feito algum feito gigantesco, escapado de uma masmorra de fuga impossível. Mas foi uma ilusão, não tinha vencido coisa alguma.
Não venci, já que os meus pais regressaram a casa logo no dia seguinte, e a tal ordem natural restabeleceu-se de imediato. Voltaram as minhas responsabilidades, os meus deveres, e eu tinha que me vergar sobre elas. Aquele outro dia, aquele amanhecer, entendi que não tinha sido mais que uma excepção, daí a intensidade com que o tinha encara. Mas com o tempo tornou-se aquilo que é hoje, uma memória agradável e distante.
Esta é a história de um psicólogo que nem havia de contar histórias suas. Agora, o seu caso é o oposto. A tal ordem de que falei, você adora-a, venera-a. Ela fá-lo sentir bem, seguro. E você faz o que pode para preservá-la, forçando-a a si mesmo de uma forma absoluta. Contudo, compreende que esta não dura para sempre, e graças a isso prepara-se para tudo o que possa interromper essa ordem, desde a morte dos seus pais a um eventual casamento da sua irmã…
Julgava-se forte, intocável, dentro da sua ordem auto-imposta…Só que ela não podia ser mantida para sempre. Não, a morte daqueles que nos são próximos é algo que podemos prever, e aceitar, pelo menos intelectualmente. Mas há certos acontecimentos que nunca poderemos premeditar, aqueles que acontecem sem nós querermos ou esperarmos, e que fazem tão parte da nossa vida quanto os outros.
Você não esperava enfrentar acontecimentos desses. Provavelmente nem os considerou. Até que chegou um desses acontecimentos, que se intrometeu de uma forma tanto sorrateira como agressiva naquilo que lhe era mais querido, a sua rotina. A ilusão que tinha criado e protegido fora-se, e com ela foi também a sua força. E o que veio ocupar o seu lugar? Fraqueza e fragilidade, pelo simples facto de ter percebido que não pode controlar todos os momentos da sua vida, que haverá sempre algo que estará além do seu controlo.
É a minha visão do que me tem estado a falar. Diga-me, estou ou não certo? Sentia-se ou não assim? Isto é, se já não se sente.’
Sim…Pode-se dizer que sim. Recorda-se de lhe ter falado que não me considerava um obsessivo-compulsivo? Se alguém mexer com a sua organização nisto ou naquilo um obsessivo compulsivo entra em paranóia sem grande razão aparente. E a verdade é que se não foi isso que se passou comigo, então não foi algo demasiado diferente.
É que a minha rotina, o meu dia-a-dia, ele mantinha-se. Aquela mulher lá no meio, no fundo, não passava de um pormenor. Um pequeno pormenor que me perturbava imensamente, como se o mundo se tivesse desabado aos meus pés. Não tinha desabado, mas juro que foi como se tivesse.
Tal como lhe dizia, já nessa sexta-feira tinha tido problemas com o sono. Só que essa sexta-feira foi mais que isso. Foi quando os olhares começaram. No café e no autocarro eu já a sentia a olhar para mim, já a via a olhar para mim, directamente para mim. E quando lhe olhava de volta ela escapava, baixava os olhos, virava a cabeça, o que fosse. Mas quando olhava para mim, era um olhar de tal forma penetrante que me parecia invadir a alma.
Mais. Foi nessa que eu a reconheci no mini-mercado. Fora daquele traje de escritório, o seu corpo ganhava novas formas, formas femininas, de mulher, a cara…essa irradiava mesma, apesar da maquilhagem estar reduzida a zero. Opinião de homem, não lhe fazia falta. Ela, o seu olhar penetrante, e os dois pacotes de leite.
O par de semanas que se seguiu foi a continuação daqueles dois dias. Nervos à flor da pele, uma ansiedade sempre presente. Cada ida ao café, cada vez que apanhava o autocarro, cada segunda, quarta e sexta no mini-mercado, sabia que a tinha que enfrentar. E custava-me. Veio-me à mente a ideia de mudar as minhas rotinas, de alterar a minha ordem de vida, vezes sem conta. Nunca o fiz.
Nunca o fiz porque chegava repetitivamente à conclusão de que aquela era a minha rotina, e não a dela. Que ela teria a sua, que naqueles pontos se interligavam com a minha, nada mais que isso, e que racionalmente a acção a tomar era continuar a viver a vida daquela maneira que antes me dava felicidade.
‘Só que na prática, emocionalmente, não o conseguia. Correcto?
Na prática, sempre o mesmo sufoco. Até Sábado último.
Sábado último decidi passar a tarde num parque agradável perto de casa. Já tinha passado uns poucos Sábados e Domingos naquele parque, e tendo em conta que precisava de desanuviar pareceu-me bem. Chegou uma altura em que me sentei num banco que estava à sombra dumas árvores, fechei os olhos e respirei fundo, deixando-me lá ficar.
Deixei-me lá ficar até que sinto um peso no colo, e começo a ouvir um ladrar mesmo em cima de mim. Era um cão, claro, um Golden Retriever já crescido. Tinha as patas da frente no meu colo e estava-me a pedir festas. Hesitei à primeira, mas acabei por acabei por aceder.
“TROVÃO!” – Uma voz feminina a chamar o cão num tom autoritário. Era ela. Trazia um fato-de-treino, estava suada e com a respiração ainda um pouco ofegante. O cão sai de cima e vai ter com a dona, que me olha novamente. No entanto desta vez aquele olhar não me aparenta tão agressivo.
Ela apoia-se num joelho e começa a dar festinhas no Retriever. Fica-me a olhar desconfiadamente, antes de abrir a boca, algo a medo, acredito eu.
“Comprei-o há uns anos, estava farta de estar sozinha lá por casa. Só que passado uma semana ainda me faltava um nome para ele. Estava no meu sofá a fazer um balanço das minhas opções, cada uma mais estúpida que a outra, até que ele salta para o meu colo e me assusta. Aí resolvi logo o que chamar-lhe, Trovão. Porque quando era pequena tinha medo dos trovões, que apareciam do nada e me assustavam. Foi um dos medos que mais me custou a ultrapassar, quase uma fobia, a sério.” – Se não foi isto que ela disse, foi algo muito semelhante, garanto-lhe.
‘E a partir daí, terminou o seu problema? De há uns cinco dias para cá tudo voltou à normalidade?’
A partir daí, tenho vindo a conhecê-la. À Susana, é assim que ela se chama. Tem nome, é uma pessoa. A história dos olhares, coisa engraçada. Ela nega que me olhasse da forma que descrevi, e argumenta que eu é que lhe olhava assim. Eu pelo meu lado, também o nego, como não podia deixar de ser.
Não mete açúcar no café pela mesma razão que tinha ido correr àquele parque. Preocupa-se com o seu corpo, não superficialmente, não por vaidade, preocupa-se com a sua saúde. Os dois pacotes de leite devem-se ao Léon, o seu filme favorito. Foi uma mania que retirou de lá. E sim, é um animal de hábitos, como eu. Isso já estava visto e revisto.
‘Mudara-se há pouco tempo para cá, suponho. E também você mudou de há um mês para cá.’
Ela mudou-se, e eu mudei, é um facto.
‘E aquele sentimento nervoso ao pé da Susana acabou?’
Não lhe sei dizer. Talvez apenas tenha mudado igualmente. Para aquele tipo de nervos que se sente quando se é um rapazinho de primária e estamos a falar com uma menina gira e simpática. Você compreende-me, não é?
Text
7 de Agosto de 2011
Faz uma semana que voltei a Portugal. Voltei porque já estava há um tempo por Inglaterra, demasiado tempo. Treze anos, talvez não pareça assim tanto tempo, talvez não o seja. Para alguém como eu é. Inglaterra sempre foi maior do que Portugal . Em Portugal o próprio Hino fala de Inglaterra. Em Inglaterra, Portugal é vinho do Porto e uma estância de férias engraçada, não muito longe. No Algarve os cães têm que ladrar em duas línguas para conseguir sobreviver. Pergunte-se a um inglês se sabe português e este responderá ‘Why should I?’.
Poderia falar de como a Economia está num fosso, de como é um país habituado a levar no cu da Europa, mas prefiro resumir a coisa dizendo que é simplesmente um país de merda. Um país de merda onde passei uma infância de merda. Porque raio voltar a um país de merda onde se teve uma infância de merda? Dizer que o passado é algo que fica sempre connosco chega-me, e é um facto, fica. O meu passado fez o meu presente.
Para além disso, ver o que restava daquela velha casa, onde o filho da puta se divertia a escolher uma fivela diferente cada dia para me bater arrepiou-me a espinha. Belo, nostálgico. Se há alguma coisa se pudesse assemelhar a uma viagem temporal seria algo como isto. E agora aquele sítio é uma ruína onde se começa a formar raízes e crescer plantas. Ironia poética, é assim que me vejo.
Olho para o meu relógio, passam cinco minutos das vinte uma e meia. Estou no Largo de Camões, onde era suposto estar, já cá estou há dez minutos sentado. Nove e meia era a hora combinada, o meu primo está atrasado. Esperar não me irrita. Há uns anos irritar-me-ia; já não. O que me irrita são as pessoas que passam por mim e me olham de lado, com aquele glance de nojo. Ou os miúdos que andando à distância apontam e se riem, como se de uma aberração de circo me tratasse.
A minha vontade? Fazê-los engolir os dentes, um a um. Ser-me-ia mais díficil explicar o porquê de não o fazer, do que enumerar as razões para querer foder os cornos a cada um destes mortos-vivos que andam a rastejar para aí.
Vem agora a descer a rua um gajo engravatado, com um andar todo emproado. Acho que é ele, o Rodrigo. Pelas fotos que me enviou, parece. Não que eu precisasse de fotos, a última vez que o vi tinha dezassete, e ele vinte. Na altura tinha acabado de desistir definitivamente dos estudos, e nem sequer tinha levantava um dedo para procurar trabalho. Os pais criticavam-no, ameaçavam-no, o que fosse. Nós riamo-nos.
Passado estes anos rodou por uns quantos trabalhos para desenrascar até assentar num escritório qualquer. Mais que isso acabou por casar com uma tipa qualquer que engravidou para aí. Era um típico ‘free spirit’, passou a pai e marido, típico. Estou quase certo que passou para o outro lado, esta noite é a prova dos nove, nada mais.
O engravatado aproxima-se, é ele, não haja dúvidas. É. Ele vê-me e fica a olhar de forma desconfiada, como se fosse um caralho dum estranho com uma cara engraçada. Levanto-me num salto, ponho-me frente a frente com ele e estico-lhe a mão num cumprimento. A expressão de parvo não desaparece.
Rodrigo (num tom confuso e retraído): Nicolau?
Nicolau (de pronto): Nick. Sim, sou eu. Quésta merda, já nem consegues reconhecer um gajo?
Ele continua a olhar-me de alto a baixo, e não é complicado perceber porquê. As calças rotas do uso, as tatuagens que me cobrem os braços, o cabelo que já não devo lavar há uns dias. As reacções raramente são diferentes. A medo, lá me aperta a mão.
Rodrigo (nervosamente): Nick? Ah pois, era assim que te chamavam em Inglaterra.
Nick: E quero que continuem a chamar-me assim. Nicolau é um nome estúpido. Simplesmente estúpido. Nick? Nick tem aquela sonoridade, aquela presença…um homem tem que ter presença. Nick Lawrence é o meu nome.
O tipo encolheu os ombros, com vergonha. Paspalho. Deve ter achado que estava a dizer alguma piada. Não entendeu as minhas palavras, eu sei. Quase ninguém as entende. Quase toda a gente é não mais que uma sombra de conformismo, apatia pura. O Rodrigo não é excepção, a prova dos nove está tirada.
Nick: ‘Tão, vamos pós copos, que me dizes?
O gajo levanta a mão direita, mostrando o anelar. Jura, idiota.
Rodrigo: Pós copos? Com mulher e filha em casa? Nick, combinámos um café por alguma razão, não dá para mais.
Nick: Ó vá lá – Atiro-me para cima dele, pondo um braço à volta do seu pescoço numa postura amigável, mas propositadamente exagerada – sabes que isso do ‘beber um café’ é uma expressão que só se leva minimamente a sério quando é pa engatar gajas. Nós somos dois homens que já não se vêem há anos. Que melhor maneira de dois homens se voltarem a ligar do que a beber uns copos?
Rodrigo (num tom defensivo, pouco decidido): Há responsabilidades, Nicolau, lá porque tu não cresceste não quer dizer que os outros não o façam.
Nick: E fugir por uma noite às responsabilidades? Uma vida só de responsabilidades torna-se aborrecida, priminho.
…
Consegui levá-lo para os copos. Um pouco de pressão e cedeu. Normal, nada surpreendente. Estamos num balcão duma taberna escondida. Para além de nós só estão duas jovens na taberna, chegaram há pouco com um ar perdido, sentaram-se numa mesa no fundo e pediram um par de bebidas; devem ter uns dezasseis anos, e têm cara de cavalo, mas isso não lhes impede de se vestirem como prostitutas de esquina. O parceiro de bebida já mal se aguenta, não tem o meu figado.
Nick (vivazmente): Mais um copo para os dois, ã?!
O rapaz tira a carteira do bolso, e pega numa fotografia. Acho que já nem me ouve.
Rodrigo (A agarrar a fotografia, com a mão trémula): Esta é a minha menina, a Bia. Bia de, de Bianca. Eu queria chamar-lhe…A, Ana. Mas a Susana não qu…gostava do nome. Bianca ficou.
Nick: Hum, hum. Isso é um sim para mim. Vá, eu pago a próxima.
Reparo nas pêginhas a levantarem-se, preparam-se para sair.
Rapariga: Eu não te disse que não era aqui? Porra, Joana, este sítio fica no caralho mais velho, porque é que o Miguel e os outros vinham pa cá?
Ao passarem por mim dou uma tapa na de rabo gordo com os calçõezinhos de tamanho de roupa interior, a Joanita.
Joana (num grito irado): Mas quem é que raio é que você pensa que é?!
Nick (de forma jocoza): Não me digas que não gostaste, queridinha? Com uns calções assim e uma panela dessas estavas mesmo a pedir que alguém te desse uma boa chapada.
A outra agarra-a pelo braço e leva-a lá para fora, tanto melhor. Olho para a carteira rosa na minha mão. As mulheres pensam que andar de mala na rua é perigoso, quando andar sem ela é que é um chamariz, não é fácil roubar uma mala sem que ninguém dê por isso, principalmente a dona. Abro-a, uma nota de 20, uns cartões e um preservativo. Pelo menos é uma puta com protecção.
Nick: Ó chefe, afinal não ficamos por aqui, venham mais dois desses shots manhosos.
O bartender é um velho com um olho torto que parece estar a dormir em pé. Lá me serve os copos.
Nick (num grito alegre): Pela garganta abaixo, priminho!
Rodrigo: Eu não…não consigo.
Nick: Ora foda-se, claro que consegues, és um homem, meu amigo!
Engolo a bebida num trago, queima a descer, é sempre assim, mas já não me custa. Ai se me custasse. O Rodriguinho entorna metade antes de conseguir beber aquilo, pensei que vomitasse logo ali.
Rodrigo: Ai…
Entram mais duas pessoas na taberna. Um quarentão barrigudo e uma cavalona que ao contrário das outras duas era uma puta a sério, de rua, é daquelas coisas que dão para ver à primeira.
Agora que reparo, são três. Vem um miúdo pequeno atrás deles, de para aí sete anos? Sete anos talvez. O miúdo ‘tá a agarrar as calças do gajo numa atitude desesperada.
Miúdo (a gritar irritado, quase a chorar): Vá lá, pai eu não gosto disto!
O tipo afasta-o como se nada fosse.
Quarentão (rispidamente): Vai lá para fora, não chateeis.
Nick (pondo a nota de 20 roubada na mesa): Patrão, dê-me aí um copo desse sumo de laranja que usa para misturar, que eu deixo a nota para si.
O velho serve-me e leva a nota.
Nick (agarrando Rodrigo pelo braço): Anda daí, idiota.
Puxo o inútil lá para fora. A custo, ele senta-se no chão, mesmo ao lado da entrada.
Nick (oferecendo o copo de sumo à criança): Sede?
O miúdo olha-me receosamente, está desconfiado.
Nick: Vá rapaz, eu não te faço mal. Não gostas de sumo de laranja?
Ele lá aceita, e bebe um golo.
Nick: Aquele homem lá dentro é o teu pai, não é?
O puto assente.
Nick: Gostas dele? Não me parece que o que ele esteja a fazer lá dentro seja certo.
O rapazito abana a cabeça, óbvio.
Miúdo (numa voz tremida): Eu…eu odeio-o.
Sorrio, não o consigo evitar, sai-me naturalmente.
Nick: Sabes, às pessoas más acabam sempre por acontecer coisas más. Aposto que o teu pai vai ter o que merece,não te preocupes.
O rapaz acaba de beber o copo e vai para dentro. Não confia em mim, não me admira. Sento-me ao lado da inutilidade, o tipo ‘tá a soluçar que se farta.
Rodrigo (num tom chorão): Ainda bem, Nick…ainda bem que me convenceste. Eu detesto…a…a minha vida. O trabalho é sempre a mesma merda. Estou farto da Sus…ana, farto. Se não fosse o bebé, nem me casava. A puta nem no nome da minha filha…nem no nome…
Boa, diz-me algo novo, algo original. Olho para o lado, reparo num grupo de quatro pretos bem imponentes a virem aí ao virar da esquina.
Nick (num tom bastante alto, espalhafatoso): Dass, meu, viste aquele gordo lá dentro?! O gajo tem mesmo ar de quem tem papel. Não tivessemos assim todos fodidos e gamávamos o filho da puta na certa.
Rio-me, rio-me que nem um louco, que nem um bêbado, embora não tenha muito mais que uma leve névoa na cabeça. Os pretos passam por nós, ainda nos olham, mas acabam por entrar. Levanto-me, e afasto-me. Ainda oiço o meu adorado primo a vomitar, e uns gritos vindos da taberna.
Ao caminhar sem rumo acabo por ir parar a um parque de estacionamento, tiro as minhas chaves de casa do bolso e risco o primeiro carro que me aparece à frente. Um Honda vermelho. É destas merdas que gosto. Caos controlado.
É o que a vida é. Caos, e controlo sobre o caos. Não é mais que uma mão-cheia de possibilidades aleatórias, que parecem ser destino, mas pelo qual na realidade temos sempre mão. Ao riscar esta porcaria não sei o que vou fazer à vida do dono, mas alguma coisa será, alguma influência terá. Tanto quanto sei posso fazer com que uma gaja casada acabe por ter um caso com um mecânico. É lindo, dá-me gozo.
Guardo as chaves, tiro o maço e o isqueiro. Acendo um cigarro. Esta noite ainda está no seu início.
…
Acordo. Outra vez. Outra vez a ressaca. As dores de cabeça já não me incomodam. As dores não me incomodam. O que me enerva é esta sensação de boca seca, pouca importa, também acabarei por me habituar a ela, já devia estar habituado.
Levanto-me, vou à cozinha, ao frigorifico. Um copo de vodka para abrir o dia, a tarde, o que for.
Text with 2 notes
Matemos o tempo
No velho banco de pedra
Mordia teus lábios doentemente
Como se se aproximasse o fim
Como se fosse deixar de haver presente
Naquele banco de pedra
Sombreado pelo grande carvalho,
Tornava aquele tom batido de morango
Em vermelho sangue vivo
A inconsequência adolescente
Batalhando a ferro e fogo
Só e não mais que por um simples momento
Aquele banco de pedra, aquele grande carvalho
São agora resquícios de memória
Duma guerra sempre perdida,
De quando tentava sugar cada momento
Até que ao tempo fizesse ferida
Ex-combatente da vida, resignado,
Trato a morte por tu,
Tendo a sorte de te tratar por nós
E assim, o dia pelo dia
Duas folhas secas à deriva do vento
Até que jazamos, túmulos de pedra
Lado a lado,
À sombra de um grande carvalho,
Que nos verá vivendo na morte
O sonho do para sempre.
Text
I
Meu pai nasceu há sessenta e cinco anos em Odivelas, precisamente na casa ao lado daquela onde haveria de viver as suas primeiras três décadas neste mundo. A casa duma parteira cujo nome sei que já me foi dito, mas não consigo recordar.
Seu pai, meu avô que nunca cheguei a conhecer, sempre me foi descrito como um polícia – e homem - respeitado na zona, alguém com uma postura de força bem demarcada no seu próprio carácter. Contaram-me que a sua atitude perante tudo era duma permanente e desmedida seriedade, uma figura que não sendo nem de perto um colosso físico impunha respeito apenas pela presença, pelo aproximar do som do ronco do motor da mota que montava cada vez que trabalhava. Alguém com um semblante que com o andar dos dias e da existência não se alteraria, rígido, sem um traço de sentimento, como se tivesse sido esculpido em pedra por um artista amorfo. As várias histórias, as várias versões de vários narradores coincidiram sempre com esta parte do perfil. O resto…bem, uns podiam dizer que apesar de tudo era dono de um bom coração, referindo que a certa altura terá chegado a ajudar a sua família que vivia na mais horrenda miséria, outros que era um louco e que tinha passatempos vis, falando duma cena que supostamente a sua mãe – ou irmã mais velha, já não sei precisar - vira, em que o meu avô terá apanhado uma ratazana apenas para lhe atear fogo por um misto de gozo e crueldade, rindo perante o sofrimento da criatura, ou então que apesar da presença pujantemente autoritária de quem as pessoas chegariam a ter temor de olhar directamente nos olhos, mas ao mesmo tempo falta de ousadia para baixar a cabeça quando por perto, julgando que esse acto poderia ser entendido como puro desrespeito, este homem não passaria de alguém reservado e desconfiado, quem sabe talvez tímido, dono de poucos ou nenhuns amigos, que se limitava a dedicar ao trabalho.
Sendo franco, eu acredito que estas possam ser três fracções dum mesmo homem, pois não vejo razão para que quem quer que seja não possa ter um traço de bondade ao ponto de, eventualmente, ajudar quem precise, ter outro traço duma espécie de loucura maldosa, e acabar no fundo, por ser um indivíduo recatado. Por outro lado, podia não ser nada disto que escrevi, tanto a solidariedade, como o rato a arder podem não ser mais que simples ficção de novelistas idosos que se deixaram levar pelo correr das palavras, da imaginação, e duma memória que já não seria a melhor.
Quanto à mãe de meu pai, minha avó, bem menos histórias ouvi. Creio que isto se deve ao facto desta ainda me ter acompanhado enquanto viva por uns bons anos. Morreu naquela minha idade - dita como revolucionária, embora eu nada de extraordinário tenha notado – de dezoito anos. Julgo que pensam que estando eu tanto tempo com ela, já deveria conhecê-la, então dispensam contar-me coisas que supostamente deveria saber, histórias que provavelmente me tinham sido contadas pela sua própria boca, no seu particular tom de voz. Curioso é que, de verdade, não raras vezes eu me esquecia até do seu particular tom de voz. Penso que isto seja o suficiente para entenderem o que quero dizer, é que apesar de dezoito anos a partilhar o mesmo mundo, sendo família, e vivendo a não mais que um par de quilómetros – se tanto… - um do outro, eu e a minha avó paterna nunca fomos muito próximos, longe disso.
Razões, posso dar umas quantas. Primeiro de tudo, os meus pais nunca me tentaram aproximar dela, nem me recordo dela alguma vez ter tentado aproximar-se de mim. E mais do que nunca me terem tentado aproximar da minha avó, os meus pais não eram propriamente simpáticos quando se falava dela. Meu pai sempre a tratou com desrespeito, aquele desrespeito em jeito de revolta, típico nos adolescentes que se querem libertar das asas protectoras dos seus papás, mas isto num homem com os seus quarentas e alguns. Pois, o que me recordo de meu pai em relação à minha avó – afinal, sua mãe – era um talento para lhe chamar estúpida das mais diversas e originais formas, de lhe desligar o telefone na cara mal ouvisse a primeira coisa que lhe contrariasse, de arranjar constantemente uma desculpa conveniente para desaparecer naquelas ocasionais visitas de médico, enfim, aquele desprezo com tons de escárnio sempre presente, quer nas palavras, quer nas acções. No que toca à minha mãe, sempre lhe foi dando a sua atenção, falando com ela, respondendo às chamadas, mas demonstrava perfeitamente que a encarava, apesar de tudo, como um estorvo. Ficava minutos a fio sem dizer algo, deixando aquela ‘velhota’ entrar num monólogo, replicava com ‘sim’, ‘não’ e pouco mais, encolhia os ombros quando esta se queixava deste ou daquele aspecto da sua vida. Era como se aquela mulher fosse um dever, e não passasse verdadeiramente disso.
Eu, no que toca à família, tenho uma visão algo fechada. Defendo que uma família pouco unida, dificilmente poderá passar a uma família unida com o passar das gerações, e vice-versa, como é claro. Sempre tive aquela ideia de que a família com que nascemos é a família que sempre teremos, que é algo com que temos necessariamente de nos conformar, porque lá está é algo que vem desde do nosso nascimento, somos herdeiros da nossa família, e herdamos a nossa família. Afinal porque é que haveríamos de fazer com que o nosso pai deixe de odiar a sogra, nossa avó? Como é que haveremos de fazer para que a nossa parte da família se comece a dar com aquela que vive a pouco mais do que 10 quilómetros de distância, mas usa a desculpa do ‘ah e tal, estão longe’ para não se verem mais do que na época de Natal? Somos miúdos, habituamo-nos a estes factos desde cedo, e mais tarde não vemos interesse em mudá-los, porque, a forma de ser da família, é algo que realisticamente já faz parte de nós, e na nossa cabeça as coisas não fariam sentido duma maneira diferente. Mais facilmente um amigo nosso começa a dar-se com a nossa prima, indo nós depois por arrasto, do que nós começaremos a dar-nos com ela do nada.
Mas, não é só esta a questão, há outra, a das aparências, ou melhor das pré-aparências. O que é isto das pré-aparências? É o que chamo àquilo que antecede a primeira aparência. É o nosso amigo que nos quer fazer um arranjinho com a colega de trabalho que apelida de ‘gorda e estúpida’, tirando-nos logo a vontade de conhecê-la. A tal colega pode não ser gorda, nem estúpida, mas antes de a encontrarmos já temos na mente que ela assim o será. E porque raio é que haveríamos de estar interessados numa mulher ‘gorda e estúpida’? A vontade de conhecê-la cai a pico, e embora ela não tenha uma silhueta perfeita – nada que sirva sequer para chatear – vamos encarar a coisa como se uma miniatura de baleia se tratasse, o primeiro comentário que nos incomode passará a uma estupidez cabal, e assim sucessivamente. A família funciona também com o bate-boca, e se a nossa mãe nos fala da sua tia chata, que não se sabe calar, a nossa reacção natural será a de tentarmos não ficar demasiado tempo próximo dela, quando ela finalmente vier fazer uma visita.
Com a minha avó, creio que muito terá sido assim, tratava-a com desprezo e enfrentava cada ida a sua casa como se este fosse um dever incomodativo, porque os meus pais assim o faziam. Contudo, sendo sincero, com ou sem influências, eu recordo a minha avó como uma personagem singular. Queixava-se da falta de companhia, da solidão, mas olhava para todos os vizinhos com desconfiança, e nem a um boa tarde retribuía. Temia a morte, ligava desesperada por causa dum começo de constipação que se resolveria em três tempos, só que no que tocava a tomar os medicamentos diários, de que precisava, falha regularmente. Chorava com pena de si própria, pela vida de tédio que levava, e no entanto continuava a passar todas as tardes em frente à televisão. Era como se tivesse parado no tempo - ou melhor estivesse a flutuar sobre ele - aguardando uma morte penosa que não desejava, que temia, e…rigorosamente nada mais. Presente, futuro, não tinha. Era como se se tivesse condenado ao corredor da morte, e aquela casa, de onde muito raramente saía, fosse a sua cela privada. Toda ela era passado, a sua casa era passado, decorada só com fotografias a preto-e-branco, de gente que já há muito tempo teria perecido, de crianças que já seriam adultos, do seu marido, sempre com a mesma expressão sem expressão. É esta, enfim, a derradeira imagem que retirei da minha avó paterna, um poço de conformismo e derrotismo. O cansaço da vida, e o medo da morte, lado a lado.
Que vida teria tido ela antes desta, de demarcada auto-penitência? Como as outras pessoas a veriam? Que outras qualidades teria, que outros defeitos? Que gostos para além duma caixa que passava imagens, vozes e poucos mais? São perguntas a que eu responderia com agrado, se houvesse algo que me pudesse indicar as respostas, meras suposições. Só que nem suposições tenho. Nunca me interessei em tempo pertinente, para as poder ter. O pouco que posso acrescentar é que terá sido uma criança, como todos já fomos, que terá tido uma vida com as suas alegrias e volte-faces, porque uma vida que chega à terceira idade terá, indubitavelmente, de ter os seus momentos de felicidade e de sofrimento, e que, além das lides da casa nunca terá tido um trabalho, uma ocupação.
Quanto à questão de como é que este meu avô e esta minha avó se juntaram? Também aqui me encontro completamente às cegas. Lembro-me de ter interrogado a minha avó e o meu pai sobre o assunto, na época dos meus quinze anos, a idade do meu primeiro amor. Ela mais não disse do que um vaguíssimo ‘foi aqui em Odivelas que o conheci’, antes de tornar a voltar as atenções para aquela televisão, o meu pai terá ripostado a minha curiosidade com algo como um suspiro leve, um coçar de cabeça, e um encolher de ombros a que eu dei um valor de um verbalizado ‘basta, não quero falar sobre nada disso’. Assim, a parecer alguma coisa, o que parece é que simplesmente terão ficado juntos por…mera casualidade? Talvez, embora com tantas fotografias do seu falecido marido nos corredores, nos quartos, na sala, na cozinha, esta possibilidade me cause alguma impressão, embora a casualidade tenha as suas ligações ao destino, e o destino seja normalmente visto como algo belo.
Cinco anos antes de meu pai, nasceu, em Santo Antão do Tojal, a minha mãe, filha de duas pessoas que eu posso mais facilmente explicar.
De descendência africana, meu avô materno – a quem eu me acostumei a tratar só por ‘vô – partiu para Portugal com uma idade demasiado tenra para guardar lembranças da sua pátria angolana. Acolhido e criado numa Casa do Gaiato onde terá tido uma educação que, parafraseando uma espécie de discurso que ele parecia ter decorado…, ‘jamais poderia considerar uma educação suave, teve a sua dureza, mas quanto baste. Muitas vezes as próprias gentes não eram duras, faziam-se de duras tentando transmitir que a própria vida era por si dura, como se nós, crianças sem família não fossemos entender isso, mais tarde ou mais cedo, de uma forma ou de outra. Mas, acima de tudo, passaram-me bons valores, eram pessoas honestas que acreditavam em princípios simples, no trabalho árduo e as suas recompensas. Princípios de solidariedade e camaradagem que me fizeram crer na bondade natural de nós, Homens, e que um voto de fé, de confiança nunca fica mal’. Certamente que nem todos os miúdos que partilharam aquele espaço, aquele tempo, com ele acabaram por se tornar boas pessoas - seja o que for uma boa pessoa… - melhor, bons cidadãos. O meu avô, sim. De resto, se há uma imagem que tenho dele é a de um homem respeitável. Não raramente, ao andar na rua com ele, para ir para aqui ou para ali, não nos cruzariamos com pelo menos um conhecido ou amigo do meu ‘vô. O ritual era o seguinte, o primeiro a reparar no outro exclamava o nome do companheiro com alegria, deixando transparecer a sensação de que aquela presença lhe daria um pequeno rejúbilo, que tinha vindo a calhar, depois seguir-se-ia um cumprimento forte e o cultural ‘Tudo bem contigo…’, que quando era dirigido ao meu avô seria invariavelmente prosseguido por um ‘…senhor António?’. Era como que uma regra, o meu avô poderia não tratar o outro como ‘senhor’, mas este tratar-lhe-ia sempre dessa forma. Este pormenor ganhava especial relevância atendendo a um facto que, para mim, tinha tanto de óbvio quanto de valoroso, o facto de que independentemente de quem o cumprimentasse, de quem lhe chamasse de ‘senhor’ o fazia duma maneira claramente descontraída. Tanto fazia se eram mais novos do que ele, antigos empregados, o que fosse, não havia aquele tom de voz forçado, hipócrita, nem aquela tensão de movimentos, como se houvesse não só a preocupação em dizer a coisa certa, como o receio em dizer a coisa errada. Havia aquele ‘senhor’ lá pelo meio, mas tirando isso tratavam-se por tu, o que eu achava notável. Achava notável pois encarava todo aquele à-vontade na forma de estar como um indício de verdadeira consideração pelo homem, meu avô, não uma consequência de imposições que todos conhecemos, como o respeito extra que ‘devemos’ ter pelos mais velhos ou pelos nossos patrões.
E pelo que vi, pelo que sei, e pelo que conheci o ‘vô era uma pessoa digna desse respeito. Levou uma vida onde nunca fugiu ao trabalho, coleccionando desde novo trabalhos como paquete disto ou daquilo, disponibilizando-se aos educadores para dar uma mão nas tarefas enquanto a maioria se escapulia para uns jogos de futebol. Aos 16, se não me engano, começou a trabalhar como servente para um pintor de casas, e assim se aguentou por uns anos, até se soltar para trabalhar por conta por conta própria no exacto mesmo negócio. No entanto, apesar desta atitude de trabalhador esforçado e leal, este meu avô sempre teve outros interesses, nomeadamente a literatura, sendo que chegava a aproveitar as pausas nos serviços para ler alguns clássicos, em especial obras de Camilo Castelo Branco, de quem era particular apreciador.
Aliás, o meu velho António era fã da estética romântica por si, e, aparentemente, também esse gosto lhe serviu de influência. Digo isto porque é dele o único gesto de amor, que conheci até hoje, capaz de entrar num daqueles filmes de romance em que o protagonista acaba invariavelmente por ter uma derradeira prova da sua paixão que conquista a sua amada.
Antes dessa história, um pouco sobre a minha avó para contextualizar melhor o momento, para se ter o conhecimento das duas ‘personagens’. Nascida em Coruche, vila do distrito de Santarém, estava sentenciada ainda antes de nascer a uma existência na mais vincada humildade, filha dum agricultor que trabalhava a lavrar o campo de outrem e uma mãe que era doméstica e não sabia fazer nada mais do que as tarefas que se fazem em casa, coisa que não era de espantar naquele tempo. Foi essa vida humilde que teve durante os primeiros cinco anos, altura em que o pai sucumbiu perante a tuberculose.
A partir daí passou a ser uma vida de simples miséria, de dificuldades, de fome, de sacrifícios. Sem o marido, nem qualquer solidariedade do antigo empregador deste, a mãe viu-se obrigada a ter que trabalhar como criada, apenas em troca dum tecto e de escassa comida. A minha avó habituou-se desde logo a (ter que) ajudar, e pelo que a própria diz os tratos não eram os melhores, com insultos constantes que caíam frequentemente para a agressão física. Os maus-tratos tinham que ser acatados, como se fizessem parte do trabalho, como se de animais se tratassem. Ainda segundo a minha avó apenas por uma vez ela se revoltou com isso, uma vez em que, com dez anos, por deixar cair uma chávena de chã à frente à sua senhora recebeu de imediato uma violentíssima chapada que a deitou ao chão. Cansada e enfurecida, pegou numa cadeira a custo, ameaçando a mulher que se esta lhe voltasse a tocar lhe bateria. A mulher terá ficado a rir-se na cara chorosa dela, até que lhe aparece a mãe que, submissamente, a agarra e faz o pedido de perdão, que claro está, haveria de ser tudo menos sentido. Foi o último dia das duas nessa casa.
A sorte mudou uns anos depois quando um casal indicou os seus serviços a uma amiga da família, uma idosa residente na Nazaré. Sem grande escolha, partem então para o litoral. Aí, conhecem a senhora Suzete, uma viúva enlutada pela morte recente do marido, a primeira patroa que as tratou com uma ponta de consideração, mais, que as tratou verdadeiramente bem. Talvez por se tratar duma velhinha que já não tinha nem pachorra, nem energia, para chatear quem quer que fosse, – embora inexplicavelmente eu tenha a sensação que quando é para chatear alguém mais novo, os velhos costumam é ganhar forças – talvez por compreender a dor que ainda residia, certamente, naquelas duas mulheres e partilhá-la pelo momento que passava e tentava ultrapassar, ou, quem sabe, talvez fosse somente uma boa pessoa, e estas hipóteses sejam somente idiotices. Fosse como fosse, o certo é que ambas eram finalmente tratadas não como gado ou algo que lho valha, mas sim como gente. De facto, a senhora Suzete tornou-se amiga das duas, sendo capaz de passar horas a falar com a minha bisavó, quer fosse de assuntos triviais, quer de histórias da sua vida, enquanto as duas bebiam chá, ou de comprar roupas que escolhia com vaidade para a minha avó, passeando depois com ela na rua, orgulhosa, como se esta fosse de seu sangue, sua neta. Três anos sucederam-se assim, um após o outro, suavemente, até que a dona Suzete adoece. Uma doença que os médicos nunca conseguiram perceber qual era, mas que a levou a ficar acamada de imediato. Daí à sua morte, uma semana, uma semana penosa, onde os gritos de agonia se intercalavam com os momentos de fraqueza e abatimento. Uma semana em que as minhas ascendentes cuidaram da patroa como se esta fosse um familiar, em que sofreram a cada sinal de pioria, e que foi terminada a chorar a sua partida. Foram das poucas pessoas a presenciar o enterro, ao lado dumas quatro amigas da senhora - três delas já conhecidas graças a uma ou outra visita ocasional – e o padeiro que todos os dias batia à porta deixando umas quantas carcaças e um alegre bom dia à senhora. Família, nem vê-la, filhos, netos, irmãos, primos. Como se não existissem. De facto, não existiam, e essa terá sido uma das explicações para que a dona Suzete tenha deixado às suas empregadas a casa.
Foi algum tempo depois que se deu o tal momento. Seis anos depois, para ser mais preciso. Em pleno Verão, num mês de calor tórrido, como é o mês de Agosto. Um daqueles muitos momentos que nascem aparentemente do nada. Este momento em particular surgiu dum impulso de um jovem – não demasiado jovem – que com a sua vida relativamente estabilizada decidiu tirar uns dias para si e visitar finalmente a costa da Nazaré, de que tanta coisa boa tinha ouvido; do facto do primeiro quarto que este jovem tentou alugar estar arrendado para aquela semana, do segundo estar numa remodelação qualquer que ficou por ser explicada, do terceiro quarto estar disponível a um preço chamativo, tendo ainda uma localização agradável, perto da praia e com um café de bom aspecto logo à frente; da primeira noite de férias na Nazaré ter calhado numa das poucas sextas-feiras em que uma empregada doméstica teve liberdade concedida pela sua mãe para sair, indo com um par de amigos para um café, - par de amigos que já há uns tempos se mostravam interessados um no outro, e que nessa noite quiseram deixar isso ainda mais claro, não tendo problemas em deixar a tal empregada doméstica um pouco de lado, a fazer de vela, como se não houvesse qualquer problema nisso – e que passado meia-hora nesse café, tenha entrado um homem da sua idade, que acabara de alugar um quarto ali em frente, para refrescar a garganta com uma cerveja; enfadada com os amigos, farta de ser vela, troca uns olhares indiscretos com esse homem, de corpo naturalmente robusto, tez morena e olhos de um castanho suave, e cometendo indiscrição ainda maior, devido provavelmente à mistura entre a sua falta de timidez e uma certa deficiência ou ingenuidade no que toca à habilidade social, se tenha acercado dele, cumprimentando-o e apresentando-se. Tudo isto para dar neste aparentemente simples e efémero momento, que acabou por tomar outras proporções, duma forma que qualquer uma daquelas duas almas certamente não suspeitariam.
O click foi instantâneo, e o resto dessa noite foi passada numa longa e animada conversa, que rapidamente se mudou do café com cheiro a fumo e vozes a agigantarem-se umas sobre as outras para a acalmia de uma caminhada à beira-mar. A ela, aquele seu jeito de cavalheiro do povo, respeitador sem nunca mostrar qualquer toque de presunção ou tique de superioridade, a ele, a inocência e alegria descomplexada a fazer lembrar as princesas dos contos de fada. No final dessa noite logo se combinou mais um encontro para o dia seguinte. Foi uma semana em que tentaram que todos os tempos livres da minha avó fossem a dois, nem que fossem uns cinco minutos, às escondidas tanto dos senhores, como da mãe. Uma semana que um homem trabalhador, que seis dias em cada sete puxava pelo corpo - se tivesse sorte e houvesse o que fazer - tinha planeado como uma semana de descanso e relaxamento, e se transformara numa semana de emoções e ansiedade. Uma semana, em que uma jovem que mesmo tendo as suas dificuldades desde cedo, adoptara uma atitude perante a vida digna duma criança que acorda todos os dias feliz por acordar, grata por mais uma manhã, estimulada por cada pormenorzinho daqueles que aos adultos já se sabe que escapa, sentiu pela primeira vez as chamadas borboletas no estômago, o nervosismo que as meninas quando chega a altura de ter os primeiros namorados e se libertarem da pureza da criancice. Uma semana que não tendo durado menos que as outras semanas, para estes dois findou demasiado depressa. A despedida, um beijo perigosamente perto dos lábios um do outro, sem no entanto se tocarem, um recuar dele, um acenar de adeus dela, e lá entra o pintor de casas no seu carro, que, sem um olhar por trás do ombro, liga-o e começa a viagem de retorno a casa, não deixando promessas naquela terra da Nazaré na altura da sua partida.
Regressado, meu avô tem uma noite inquieta, em que não prega olho, nem sequer é capaz de se deitar, de acalmar os ânimos, andando para trás e para a frente, para trás e para a frente, no seu pequeno quarto. Na sua cabeça remoíam-se pensamentos em corrente, de que aquela semana teria sido das semanas mais excitantes – se não a mais excitante – que já teria tido, que a beleza e singeleza daquela rapariga, projecto de mulher, ultrapassava largamente a das praias de areia branca que encontrara, e ele que amava as praias de areia branca.., que ela daria perfeitamente para ser uma musa inspiradora, daquelas que os grandes poetas cantavam e imortalizavam nos seus versos, ou uma personagem de plano principal num livro de grande narrativa, numa ficção, num romance, a encarnação da pureza num corpo feminino, uma mulher que por si só era um ideal, um mito criado pelos homens, um mito que ele vira com seus olhos, real, em carne. Mas se ela seria assim, transcendente, digna de Literatura, ele não o era, ou não o fora. Estava bem demarcado que aquela musa rapidamente o hipnotizara, tomando conta dos seus sentimentos, e desregulando-lhe os sentidos, naquela falta de lógica que seria o amor. Só que ele, acovardara-se perante tal, da mesma maneira que se tinha acovardado naquela sexta-feira no café, não tendo sido capaz de tomar a iniciativa de ir ter com aquela rapariga com quem trocava olhares, de desempenhar o seu papel enquanto homem, embora essa fosse a sua vontade e o seu desejo. Acovardara-se quando hesitou em aproximar os seus lábios aquele pouquinho mais no beijo que era para ser de despedida. Acovardara-se por, ao longo da semana, ter deixando ficar sempre preso na garganta o discurso de declaração que tinha tantas vezes pensado e repensado. Acovardara-se ao nem sequer tentar prolongar a estadia naquele lugar, para poder, talvez, ganhar então a ousadia suficiente para extravasar o sentimento que carregava no seu ser. Acovardara-se, acovardara-se! Nunca poderia ser o complemento daquele ideal de mulher, nunca poderia ser o Simão de Teresa. Não o podia ser, pois se dum lado estava aquela imagem quase pueril da figura feminina, era porque do outro estaria a do jovem sedento de vida, com sangue na guelra, o apaixonado que deixava transbordar a sua paixão de forma descontrolada à vista de toda a gente, sem vergonha e com orgulho, como deveria ser, e que, acima de tudo, mostrava-se dono duma coragem inesgotável, quase parva, incauta, não temendo qualquer dificuldade que se colocasse no seu caminho, como se se tratasse não de um homem comum, mas sim de um semi-deus sobre o qual as leis dos mortais não entravam em vigor. Ele fora tudo menos esse complemento, nunca poderia ser Literatura, fora demasiado humano para poder vir a ser Literatura. Teve medo, e deixou-se controlar pelo medo, ele que naquele tempo de ditadura tanto repudiava os que se deixavam abater pelo medo. E regressado a casa, andava de um lado para o outro no seu quarto, furioso consigo mesmo, com um coração a implorar por uma decisão, por uma acção, que a mente tardava em dar ordem.
Até que chegou a manhã. Numa investida súbita o pintor pega nas suas coisas, e se apressa a correr para o carro. Não pegava. Dava à chave, mas o motor não respondia, não queria responder, não queria trabalhar. Ora, é daqui que nasce a afamada derradeira prova de amor. Encarando aquela falha não como uma consequência natural dos anos do carro, – que à época não eram perfeitos, aliás mesmo hoje estão bem longe de o serem – mas sim como uma espécie de sinal vá-se lá saber do quê, dum obstáculo que só poderia engrandecer o seu amor, duma oportunidade de se poder fazer Literatura, ou de, ao menos ter um gesto que poderia ser Literatura. Poderia ter seguido caminhos infinitamente mais fáceis ele o sabia, podia ter encarregado o carro a um mecânico e esperar que este o arranjasse, pedido a um amigo que o levasse quando pudesse, ou lhe emprestasse o carro, que ele pagaria o combustível…Mas não, o avô António preferiu assim, pôr-se logo a caminho, só com o que tinha nos bolsos, a carteira com umas moedas, as chaves de casa e do carro, que para a travessia de nada serviriam, e ir até à Nazaré desde Lisboa, mais que uma centena de quilómetros, debaixo do Sol tórrido de Agosto, a pé e à boleia de quem se cruzasse na estrada.
Focado, nem sequer aceitava boleias que seguissem para além do primeiro ponto de referência à vista. Fragilizava demasiadamente a demanda, cria ele. E assim, na noite do dia seguinte, desidratado pois se recusara a beber o que fosse que lhe molhasse os lábios, interminavelmente cansado e com sono, pois não parara para descansar, não dormira, coxeando, mal conseguindo dar um passo que fosse, graças às mais que muitas bolhas nos pés que ganhara…chegou. Chegou e ao dar de caras com a minha avó já não era preciso discurso de amor, nem nada que se lhe parecesse, foi recebido em apoteose, com choro de felicidade, e por entre soluços foi-lhe dito que não seria preciso aquilo tudo, que fora tolo, que devia ter cuidado de si, que não tinha que a impressionar, e que, ela também o amava, como já ele o deveria tão bem saber.
O que mais posso acrescentar é aquilo a que assisti em primeira-mão, como membro integrante da família, enquanto neto. Nesse papel, em tantas visitas, em tantas vezes que estive com eles, a aparência que continuamente passavam era a de que juntos se tratavam dum alegre casal de velhotes. O que eu achava estranho, porque com a velhice, o normal – acreditava eu – era que os casais se começassem a fartar de serem casais, que não sendo o nosso mundo, um mundo da Disney onde o príncipe e a princesa acabam felizes, o marido eventualmente fartar-se-ia da mulher, e a mulher do marido. Ainda por cima naquela fase da vida em que as dores do corpo passam a ser cada vez mais insuportáveis, e a mente a falhar com uma frequência que começa como irritante evoluindo até se tornar em algo assustador, que deixa de ter qualquer ponta de piada para passar a ser uma causa para a martirização. Para além disso, a maioria dos velhos remetem-se a ficar em casa, e os meus avós eram como a maioria dos velhos. É triste que conforme nos vamos aproximando do fim entremos neste estado de degradação, que a nossa degradação seja tão natural e definitiva como a de um qualquer fruto, que depois de estar plenamente maturo só pode apodrecer. Por mais que tenhamos lutado, não interessava, chegávamos a esta idade, a terceira idade, e a vulnerabilidade seria o prato do dia, todos os dias, relembrando-nos constantemente que teremos que morrer, que a nossa extinção estaria cada vez mais perto, e que contra isso não podíamos lutar, era uma batalha perdida à partida. O destino de cada casal de velhos na minha cabeça só podia ser um, o de fustigarem-se um ao outro, com queixas e males que também o parceiro sofria, cansando-se até chegar a um ponto em que a coisa não dava mais e acabariam por se ignorar. Os meus avós, também como a maioria dos velhos tinham estas queixas e estavam cientes de que se acercavam cada vez mais daquele destino que todos teremos, mas de resto, eram diferentes da maioria dos velhos. Discutiam, mas discutiam naquele jeito muito infantil em que os namorados adolescentes costumam discutir, aquelas discussões de gozo, sem ponta de seriedade, que servirão apenas como pretexto para os momentos de ternura pós-reconciliação, que os meus avós tal como os adolescentes também tinham. Era um casal de velhos que era feliz e que prezava o tempo que tinham juntos, algo não mais raro que um casal de adultos feliz que preze o tempo que têm juntos, ou um casal feliz, no geral.
Fora isso, meu avô era uma figura amistosa, racional e lúcido quando queria, emocional em todos os momentos, sobrando poucas excepções. A questão de confiar nas pessoas nem sempre o beneficiou, tendo em conta que depois de deixar o trabalho de pintor por problemas nas costas, tentou uma carreira como pequeno empresário beneficiando dos seus contactos para abrir uma loja de tintas. O negócio durou pouco, por culpa própria, pois deixou que um amigo de longa data levasse um sem número de latas para uma obra qualquer que dizia, e acabou por desaparecer vá-se lá saber para onde. Nem por isso foi abaixo, ficou menos do que tinha, não com nada, e aquela punhalada acontecera e ele sentira-lhe cravada na carne, só que bem medida a sua vida teve mais sorte que azar, então que interessava. Também eu apreciava nele aquela personalidade de gentleman nos detalhes. Uma espécie de tradição que havia entre mim e o meu ‘vô era que quem quer que fosse campeão no futebol – eu sendo a ovelha negra, portista numa família de lampiões – apertava a mão ao outro no momento, dando-lhe os parabéns, e se o jogo do título não fosse visto na presença um do outro, então uma chamada de congratulações estaria prometida. Não falhava. E tendo em conta a minha idade, escusado será dizer que mais vezes ele me deu os parabéns que eu a ele.
A minha avó, era a minha avó, e eu o netinho dela. Sempre fui o netinho dela, o primeiro netinho dela, e independentemente do meu crescimento olhava-me com aqueles olhos que se olham aos meninos pequenos, e sorria aquele sorriso que se faz para os meninos pequenos. Gostava disso nela, era simples e bom. Outra coisa que sobressaía nela era o quão grata ela era pelo que tinha, que não era demasiado, e pelo que conquistara na vida, que para muitas pessoas não bastaria, teve um passado duro que não esquecera, que lhe fizera dar a importância de ter um prato na mesa, ou chinelos para calçar. Era daquelas pessoas que exclamava ‘coitados!’, entre suspiros, perante as imagens de miséria dos noticiários. Só que vindo dela era uma exclamação com sentido, e os suspiros eram sentidos.
A estes meus avós nunca me fez impressão estar em casa deles, nem aquando da morte da minha avó e a mudança do meu avô para o lar, nem após a morte do ‘vô António naquele lar, onde ainda o visitei, e este fez as suas últimas amizades.
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Pré-capítulo
De há uns tempos para cá tenho pensado naquele que deverá ser um dos maiores receios humanos. Falo do receio de ser esquecido. Daquela ideia de que com a morte do corpo virá a morte do Homem. Uma ideia que eu admito como assustadora, naturalmente.
O princípio de que no fundo somos tão facilmente descartáveis quanto o pacote de leite que ontem de manhã deitei ao lixo, ou ao pacote que dois dias antes teve o mesmo fim. Não é um exemplo disparatado, nem ridículo, vejo como algo apropriado, embora possa-nos fazer sentir menos importantes do que aquilo que achamos. Ninguém gosta de se comparar com um pacote de leite. Mas a verdade é que ambos temos a nossa caducidade…que por si só não significa nada, dependerá de eventualidades. Um pacote de leite, depois de aberto, em minha casa nunca duraria mais que dois dias, já se sabe. Contudo, o facto desse pacote de leite ter ido para minha casa, e não para a da minha vizinha - que haverá de ter outro tipo de hábitos – é uma eventualidade. Outra eventualidade será a de um homem de trinta anos, com uma saúde vigorosa, ser atropelado e morto, sem mais nem menos, num dia qualquer.
Agora uma coisa distingue o pacote de leite, do homem de trinta anos e saúde vigorosa. O pacote de leite não tem qualquer controlo sobre o seu rumo. Se acabou por chegar ao meu frigorifico foi porque uma série de pessoas o acabaram por colocar no meu supermercado habitual, onde por acaso eu acabei por o levar. Agora o tal homem, se foi atropelado foi porque se meteu no meio dessa estrada. Podemos dizer que foi numa manhã de terça-feira, dia de trabalho. O indivíduo tem um trabalho num escritório em que entra de segunda a sexta sempre às nove da manhã, mas nesta terça em particular levantou-se mais cedo, talvez porque se decidiu deitar mais cedo na noite anterior sem qualquer razão especifica. Depois de ver os ponteiros ainda longe da hora marcada para o despertar o indivíduo prefere não engonhar, sai da cama num salto e abre os estores do quarto, dando conta que o dia de Inverno que deveria ser, mais parece um dia de Primavera. Leva a mão ao estômago, tem fome, há comida de sobra na cozinha, como sempre há, e rara é a vez que este homem come o pequeno-almoço fora de casa. Só que está um dia de Primavera no meio de um Inverno que tem sido rigoroso, e como se acordou mais cedo que o habitual há tempo de sobra. Tempo para finalmente visitar aquele café de aspecto agradável que abriu há umas semanas atrás. O que acontece de seguida é o normal, a higiene que demora cerca de quinze minutos, como sempre demora, o vestir do fato com o nó duplo na gravata, sem falha. Pronto, sai de casa, segue por um caminho diferente de todos os dias – não fosse o tal café num sentido diferente do local de trabalho – atravessa um par de estradas sem ter que parar, não havendo trânsito. Chegando então à derradeira estrada, confiante na ausência de tráfego e num semáforo para peões a verde atravessa sem olhar. Acaba por ser passado a ferro.
E os ‘ses’? Se não se tivesse deitado mais cedo que o costume, e consequentemente se tivesse levantado com o despertador, como é rotina, se tivesse ficado um pouco mais na cama só porque sim, se não se tivesse lembrado daquele café ou fizesse contas aos trocos optando por comer em casa, se a higiene tivesse demorado um pouco mais ou um pouco menos dessa vez…quem sabe, se fizesse um outro nó, que não o nó duplo, e por fim, se não se tivesse fiado pelo semáforo. Tudo podia ter evitado aquele desfecho. É uma prova daquilo a que muitos chamam destino. Mas para mim, sobretudo, uma prova de que nós, mesmo muitas vezes sem o saber ou dar por isso, é que controlamo-lo.
Se o controlamos qual a justificação para o receio, o medo de ser esquecido – e sim, eu estou ciente de que há medos que não podem ser explicados – se nós próprio podemos agir para que não o sejamos? Não digo para se agir com o pensamento focado no receio, pois nunca considerei uma acção com foco na palavra ‘medo’ uma boa acção, tal como nunca vi uma acção pela negativa como algo de salutar. Por acção pela negativa falo das acções feitas graças a um não lá pelo meio…’não quero ser’, ‘não vou ser’. Quem age deve agir não por temor, mas sim por força. Uma acção tem que ser uma acção, não uma contra-acção.
E esta é a minha acção. Posso não ser um grande homem, alguém especial, com um nome que todos conheçam. Não há nenhum feito meu que mereça especial destaque, e nem sequer me considero uma pessoa particularmente interessante, decerto pela minha vida fora estive e conheci pessoas mais interessantes que eu. Mas dessas pessoas também falarei, pois fizeram parte da minha vida e tiveram o seu papel na formação daquilo que eu sou hoje. A minha acção é não mais que escrever a minha história, tentando não exagerar nos pormenores enfadonhos e insignificantes e focar-me no sumo daquilo que foi e é a minha existência. É o que me comprometo a fazer para ser lembrado, não por demasiada gente, apenas aquela que me é próxima e me importa, e os filhos e netos dessa mesma gente. Para que fiquem com mais do que a simples que têm de mim, ou com as palavras de outras pessoas, passando elas a sua imagem de mim. Esta será uma história crua e dura, como a vida o consegue ser, não deixarei palavras de lado por serem feias, não colocarei episódios no esquecimento por serem, talvez, quase chocantes em alguns pontos, nem remeterei conclusões minhas às sombras por achar que elas poderão ter o seu quê de caricatas.
Assim, introdução feita, começo a minha história, com o intuito de ser lembrado, não o de não ser esquecido. E esta tem início - como a de todos - antes do nascer.
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